Travessia


Já me perdi tentando me encontrar.
Já me encontrei aceitando me perder.
Já fugi da dor que pedia para ser escutada.
Já escutei dores que não eram minhas para carregar.
Já segurei pessoas que precisavam partir.
Já parti de mim tentando ficar inteiro para alguém.
Já tive medo do silêncio.
Hoje o silêncio me devolve.
Já confundi entrega com submissão.
Já confundi força com endurecimento.
Já chamei de espiritualidade o que era fuga.
Já chamei de cura o que era anestesia.
Já carreguei culpas de três gerações antes de mim.
Já devolvi à terra o que nunca foi meu para carregar.
Já tentei consertar o que pedia apenas para ser visto.
Já tentei entender o que pedia apenas para ser sentido.
Já achei que travessia tinha mapa.
Hoje sei que travessia tem corpo, tem chão, tem tempo.
Já desmoronei sem saber que estava nascendo.
Já reconstrui depressa demais — sobre os mesmos escombros.
Não venho dizer o que fazer.
Não venho oferecer fórmula, atalho, nem promessa.
Venho lembrar que ninguém atravessa de pé o tempo inteiro.
Que reconstruir não é voltar ao que era —
é deixar de ser o que nunca foi.
Há um momento em que o medo perde a voz
e algo mais antigo toma o lugar.
Esse algo não tem nome.
Mas reconhece quem é seu.
— Thiago

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